terça-feira, 27 de junho de 2017

Transformar a criatividade num setor estratégico

Primeiro automóvel: Benz Patent-Motorwagen, construído em 1886

Por uma Fundação de Arte e Tecnologia


Comunicação ao colóquio parlamentar sobre o modelo de organização do sistema de criação artística nacional realizado no Auditório António de Almeida Santos, da Assembleia da República em 27 de junho de 2017.

Introdução


Sabe-se, mais ou menos, que nada poderá mitigar melhor os efeitos recessivos dos picos demográfico (1962) e petrolífero mundiais (2016), e a deflação provocada pela queda inexorável da procura agregada mundial, do crescimento, da produtividade, do emprego, e dos rendimentos do trabalho, bem como a crescente desigualdade na distribuição da riqueza, do que uma nova revolução cognitiva, cultural e energética. No entanto, as novas tecnologias de que tanto falamos, e que têm sobretudo origem, entre 1994 e 2004, na evolução rápida da micro-computação, na automação, na Internet e nas redes sociais electrónicas, são uma pálida amostra da grande Revolução Industrial ocorrida entre 1870 e 1940. Se nada de mais radical ocorrer nas próximas décadas, a transição para uma era de "crescimento zero" será seguramente mais dramática do que neste momento podemos imaginar.

As tentativas de aumentar a procura agregada (mundial ou nacional) através do aumento dos défices públicos e privados, na esperança de um regresso da maré do crescimento, têm sido em vão, e a persistência nesta deriva macro-económica só poderá conduzir ao desastre financeiro e a crises profundas nos regimes políticos existentes. Os percursos temerários da Grécia e de Portugal na primeira década deste século foram mais do que elucidativos!

De onde virão então os recursos necessários para promover uma nova era cultural e de criatividade científica, tecnológica e artística, não só geradora de produtos cognitivos preciosos para melhorar a produtividade e as balanças comerciais dos países, mas igualmente indutora de novos equilibrios sociais?

Não há muitas alternativas.

A política monetária dos bancos centrais poderá continuar, por mais algum tempo, a deter as dinâmicas deflacionistas inerentes à mudança de era, mas o preço deste perdão ilimitado e contraditório das dívidas públicas, bem como da gigantesca bolha formada pela especulação financeira mundial, poderá ser mais alto do que se espera. Outra crise financeira como a de 2008, que implicações terá em países como Portugal, e na ordem mundial?

Eu só vejo uma saída neste labirinto colocado entre dois mundos, o mundo anterior, de inovação estrutural, energia barata e crescimento rápido, e a nova normalidade, que pode ser resumida como a chegada de uma era de crescimento ténue, ou de "equilíbrio"—para usar a expressão de David Hackett Fischer.

E a saída é esta:

— reorganizar a despesa pública de uma ponta à outra, tornando-a mais racional, mais eficiente e melhor orientada estrategicamente. Só atacando a despesa inútil e insustentável em setores como os da segurança social, educação e saúde, se poderá reorganizar a despesa estratégica do Estado, fazendo uso mais justo e racional de uma receita fiscal atingida por fadiga prolongada.

Uma das ideias que é possível e desejável explorar desde já, ainda que em modelo experimental circunscrito, é a criação do chamado Rendimento Básico Incondicional, do qual decorreria o fim de uma infinidade de esquemas assistencialistas redundantes, burocráticos e muito caros quando sopesados na perspetiva da redução da base contributiva provocada pela recessão demográfica (menos pessoas, menos pessoas ativas, e mais pensionistas.)

Outra ideia a caminho é a de revolucionar o sistema educativo e a assistência médica familiar, adaptando ambos os sistemas à rápida expansão e democratização das tecnologias de informação e comunicação e respetivas redes sociais.

Uma vez iniciada esta espécie de metamorfose orçamental, haveria seguramente recursos para uma aposta estratégica na criatividade, essencial à tal próxima revolução de ideias, sem a qual não sairemos do sobe-e-desce depressivo em que estamos.

A) O mapa


Antes de passar ao Modelo de Organização do Sistema de Criação Artística Nacional que proponho a este colóquio, seria essencial começar por desenhar um Mapa Público da Criação Artística em Portugal.

É neste mapa dinâmico que o Modelo poderá lançar verdadeiramente as suas raízes.

Será este mapa dinâmico que permitirá avaliar em tempo real a evolução e qualidade do sistema.

Será este mapa dinâmico que garantirá a transparência do sistema e a comparação permanente da sua performance com a performance de sistemas similares noutros países, nomeadamente europeus.

Este mapa dinâmico servirá também, pela sua própria natureza, para avaliar a qualidade e dinamismo das instituições governamentais e autárquicas no setor da educação artística, cultura e indústrias culturais e criativas.


B) Objetivo


Desenvolver uma rede nacional de criatividade artística dirigida a um universo de 250 mil pessoas.

C) As prioridades


1) Educação artística e desenvolvimento de estratégias de criatividade, desde o Jardim de Infância até à Universidade. Ou seja, apostar na melhoria do ensino público artístico, sem prejudicar, antes favorecendo, o ensino privado das artes. O Estado deve ser forte no que faz, e para tal, face a dificuldades fiscais crescentes, deverá eleger bem as suas prioridades, deixando de procurar estar em toda a parte.

2) Assumir no Orçamento de Estado a função estratégica da criatividade nas suas múltiplas potencialidades: desenvolvimento de competências (aprendizagem contínua e investigação), exportação cultural e consumo interno (de algoritmos, plataformas e conteúdos), e criação de emprego especializado e não especializado.

3) Criar uma Fundação para a Arte e Tecnologia (FAT), financiada pelo Orçamento de Estado (nomeadamente por receitas fiscais provenientes de direitos de autor e da produtividade acrescentada pelos autómatos), por receitas dos Jogos da Santa Casa, por fundos comunitários, e ainda por doações de particulares—com incidência favorável nos seus impostos.

O orçamento anual desta Fundação deverá aproximar-se dos 200 milhões de euros.

Atendendo a que a despesa do Estado anda pelos 87 mil milhões de euros, e que a despesa dos ministérios financiada por receitas gerais anda pelo 50 mil milhões de euros, o custo aqui previsto para estimular a criatividade e a criação artística e cultural a nível nacional estaria bem abaixo dos 0,5% da despesa dos ministérios, e não chegaria sequer a 0,23% da despesa inscrita no Orçamento de Estado de 2017*. O custo anual por indivíduo abrangido seria de 800 euros.

A gestão desta fundação deverá gozar de ampla autonomia e independência, contando para tal com a assessoria de um conselho consultivo alargado aos atores e representantes das indústrias criativas e culturais, assim como das principais instituições artísticas, educativas e culturais do país.

4) Potenciar a emergência de aceleradores de competências criativas e tecnológicas no tecido criativo instalado (media labs, festivais, projetos criativos plurianuais, programas de intercâmbio internacional, nomeadamente com os países da lusofonia), através de melhor despesa pública, linhas de crédito bancário adequadas, e créditos fiscais indexados a resultados futuros.

5) Diminuição da discricionariedade na aplicação dos dinheiros públicos, através da publicitação, simplificação e escrutínio dos processos de candidatura e aprovação de projetos, atribuição de subsídios e outros apoios, assim como da avaliação de resultados.

Esta é, como se calcula, uma reforma de fundo!

António Cerveira Pinto


POST SCRIPTUM

* No Orçamento de Estado de 2017 (~87 mil milhões de euros), a despesa total efetiva do Ministério da Cultura, que passou a abranger a RTP, é de 444,8 milhões de euros, ou seja, 0,51% da despesa pública, assim distribuida:

  • MC: 209 milhões de euros
  • RTP: 235,8 milhões de euros
Se tivesse sido criada, à semelhança do que fez em tempo Mariano Gago no ministério da educação e ciência, uma Fundação para a Arte e Tecnologia, à qual seria atribuída uma dotação na ordem dos 200 milhões de euros, o orçamento da cultura ficaria assim:
  • MC: 209 milhões de euros
  • FAT: 200 milhões de euros
  • RTP: 235,8 milhões de euros
Total: 644,8 milhões de euros (0,74% do OE2017)



Como decorreu a sessão parlamentar.

Antes de mais, fui muito bem recebido pelos senhores deputados, à exceção do CDS e dos Verdes, que não apareceram. Agradeço, naturalmente, ao Bloco de Esquerda, que teve a iniciativa de propor o colóquio, ao PSD, ao PS e ao PCP, a oportunidade de expressar as minhas opiniões na casa da democracia.

O auditório esteve longe de encher. Por outro lado, os convidados (refiro-me à assistência) que marcaram a sua presença e animaram o colóquio eram na sua esmagadora maioria criadores e produtores oriundos das artes performativas, sobretudo teatro (a maioria), e dança. Havia alguns protagonistas do setor das artes plásticas, que se mantiveram em silêncio. Não me apercebi da presença de autores ou produtores das áreas do cinema, video, fotografia, música. Será que estes últimos estão satisfeitos? Ou já desistiram? Não sei.

O que mais me surpreendeu das intervenções oriundas do teatro e da dança foi a sua quase meticulosa desmontagem do logro que tem aparentemente sido a política cultural do governo de António Costa, cuja existência depende, como sabemos, do apoio parlamentar do PCP e do Bloco de Esquerda.

Algumas ideias foram mesmo cortantes.

Exemplo 1: no VIII Governo Constitucional (1981-83), chefiado por Francisco Pinto Balsemão, Francisco Lucas Pires dedicou à cultura 0,26% do Orçamento de Estado, enquanto o governo de António Costa (2015- ), apoiado pelo PCP e pelo Bloco, dedicou 0,2%.

Exemplo 2: dos 209 milhões de euros que tocaram ao ministério da cultura em 2017, apenas 6,2% (ou seja, uns 13 milhões) financiaram a atividade dos produtores independentes. Em 2006, o dinheiro aplicado na produção e criação artísticas independentes (da tutela estatal) foi da ordem dos 20 milhões de euros.

Exemplo 3: o PS, em 2011, procedeu a cortes no orçamento da produção independente na ordem dos 23%, o PSD-CDS agravou estes cortes elevando-os para 38%, finalmente o governo de António Costa, apoiado pelo PCP e pelo Bloco, mantiveram até agora os cortes sucessivamente realizados pelos dois governos anteriores, não se sabendo até à data deste colóquio o que será em 2018 a famosa aposta de António Costa na cultura.

Para já, sabe-se que a burocracia não parou de crescer e de torturar administrativamente quem afinal é a principal origem e justificação da existência de edifícios do Estado dedicados à cultura, do património cultural, dos ministros e secretários de estado da cultura, dos diretores-gerais, presidentes de institutos e diretores de museus, deputados e comissões parlamentares, e ainda alguns milhares de funcionários públicos que, por junto, consomem 92,8% das receitas fiscais (e dívida pública) dedicados pelo estado ao universo cultural.

Mais socialista, é difícil!

sexta-feira, 9 de junho de 2017

WTF?!?

Guttguff. Making waves out of nothing, 2017

WTF?!? é um estado de alma que paira sobre uma fatia cada vez maior do mundo e que um número muito razoável de artistas traduzem na forma escrita e visual dos seus escritos, vídeos, músicas, instalações e… “bonecos” — designação mordaz usada pelos bem formados artistas António Salvador Carvalho, Guttguff (pseudónimo que responde pela série de desenhos apresentados nesta exposição e por uma concorrida conta do Instagram) e Pedro Zamith.

Este trio de excelentes inventores de imaginários cáusticos uniram-se por uma espécie de matrimónio estético inabalável desde os seus tempos colegiais, ou mais precisamente desde que profanaram o velho convento das Belas Artes de Lisboa com as suas bonecadas (a expressão ilustração era já então um anátema). Documento hoje raro da sua passagem pelo Largo da Biblioteca foi um fanzine fotocopiado, povoado de heróis discentes e docentes locais, baptizado com o  título Nova Gina. Quem me dera ter um exemplar!

Artistas malditos por uma nomenclatura local dominada por descendentes degenerados do conceptualismo e suas derivas comerciais intermináveis, este trio de observadores mordazes de uma cultura pós Pop que se auto devora numa espécie de repetição macabra dos anos 20-30 do século passado, valoriza, sobre tudo o resto, o prazer compulsivo de desenhar os demónios da nossa contemporaneidade. Desenham como respiram, e desenham como pensam, à mesma velocidade!

A exposição WTF?!? é apenas o destapar de um baú de iguarias visuais e narrativas, onde as memórias mais góticas (góticas mesmo) da representação europeia se fundem com as imagens do mundo flutuante que do século 17 até aos nossos dias fizeram a magnífica tradição icónica japonesa, ou ainda com o que de melhor a Pop e a Banda Desenhada trouxeram ao século 20.

Estes não são jovens artistas à procura de uma oportunidade nos corredores mais ou menos sórdidos da arte contemporânea, mas autores maduros cuja obra começa neles mesmos, e não no teatro de vaidades e ambições angustiadas que vemos por aí.

Boa parte da mal dita arte contemporânea é hoje um armazém infinito de nada. Ninguém sabe o que é (começando pelos seus autores zombies), para que serve, e porque é tão escandalosa e ostensivamente cara.

Temos que rever, talvez numa grande exposição a começar em Rafael Bordalo Pinheiro, a figuração artística portuguesa desde o fim do século 19 até hoje.




Do comunicado de imprensa

No próximo dia 22 de junho, às 19 horas, inaugura na Editora da Livraria Sá da Costa, na Praça Luís de Camões, uma exposição de desenhos originais de António Salvador Carvalho, Guttguff e Pedro Zamith.

Produzida pela Ocupart, esta exposição é comissariada por António Cerveira Pinto, que sobre a mesma escreveu um texto particularmente vivo, do qual se destaca a sua referência às relações de amizade e criatividade, ao longo de mais de uma década, entre os três artistas, bem como ao sentido de humor particularmente ácido e contundente dos seus “bonecos”.

A exposição vai estar patente de 23 de junho a 21 de julho, das 12h às 19h, na Praça Luís de Camões, 22, 4º andar, em Lisboa.

António José Carvalho (#guttguff), nasceu em Lisboa em 1969. Em 1995 licenciou-se em artes plásticas - escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Durante anos foi assistente de escultura, colaborando com vários artistas de renome mundial e conta no seu currículo com inúmeras exposições coletivas e individuais. Especialista em fazer “bonecos” nas mais diversas formas e estilos, é também professor de Desenho A no St. Peter´s International School.

António Salvador Carvalho nasceu em Lisboa em 1969. Cursou pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e Animação 3D na Bournemouth University no Reino Unido.

Trabalha há décadas como criativo para publicidade TV num exercício de autoflagelaçao e puro masoquismo, que o inspira para projectos pessoais em torno do desenho, pintura e animação.

Pedro Zamith nasceu em Lisboa em 1971. É licenciado em pintura pela FBAUL, possui um Bacharel em Cenografia pela Escola Superior de Teatro e Cinema e um curso de Cinema de Animação, pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Atualmente é professor de Visual Arts no Oeiras International School. Foi professor de Visual Arts no Colégio Planalto e professor de pós-graduação em Ilustração na ESTC até 2012.

Pedro Zamith conta com inúmeras exposições individuais e coletivas. Publicou três livros, intitulados “Frank Sinatra” (2003), “Louis Jordan” (2004) e “O homem que desenhava na cabeça dos outros” (2006).

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A desconstrução do terrorismo

Tyler Shields and Kathy Griffin
untitled #1



Tyler Shields and Kathy Griffin
untitled #2

Quando a arte ultrapassa a propaganda.


Tyler Shields é um dos fotógrafos mais badalados, bem pagos e influentes dos Estados Unidos. Uma espécie de sucedâneo pós-moderno de Helmut Newton. Por sua vez, Kathy Griffin é provavelmente a mais famosa comediante americana dos nossos dias. Juntaram-se para fazer uma fotografia contra a hecatombe política provocada pela eleição do hoteleiro e especulador imobiliário Donald Trump para presidente da nação mais poderosa do planeta, ainda que em flagrante e aflitiva decadência.

O resultado foi tremendo. Basta escrever os seus nomes na Net para encontramos uma torrente de notícias, fotos e vídeos devolvida avassaladora. Kathy Griffin, depois do terror mediático instalado à volta de uma fake news, foi demitida pela CNN, onde trabalhava e fazia grande sucesso, pedindo depois a Tyler Shields que destruisse a foto da sua desgraça. Obviamente que a cabeça de Trump não foi decepada por nenhum dos facínoras do famoso 'Estado Islâmico', criado e apoiado por destacados aliados dos Estados Unidos, como o Qatar e a Arábia Saudita a quem Donald Trump acabara de vender 100 mil milhões de dólares de material de guerra (ver aqui e aqui). Nem se trata de uma operação especial dos serviços secretos de Hillary Clinton. É, tão simplesmente, uma abdução estética da realidade e um protótipo artístico que evoca de forma espantosa o terror contemporâneo. Uma poderosa abdução, e um poderoso protótipo, no entanto.

As degolações que o ISIS tornou mundialmente famosas resultaram de grandes e cuidadas produções hollywoodescas (The Guardian). Mas a diferença entre a ação psicológica do novo terror islâmico e os filmes de propaganda americanos sobre bons e maus, e a superioridade indestrutível dos yankees ou gringos, é que as cabeças que rolam nos vídeos do dito Estado Islâmico, propagados através do YouTube, fizeram um dia realmente parte de corpos de pessoas inocentes (James Fowley, 2014).

É talvez esta correlação entre a realidade e a fantasia que terá fascinado Tyler Shields e Kathy Griffin, e certamente explica, pelo menos em parte, a sua ousadia. O que provavelmente não anteciparam (ou talvez sim) foi a enorme repercussão mediática da sua fantasia gore, ou antes, do modo como pretenderam chegar artisticamente à famosa real thing (Miles Orvell) que denota especificamente e diferencia a cultura americana da cultura europeia, e de muitas outras.



O terror é uma das mais velhas táticas da guerra. Regressou em força no século 21 como um dos substitutos assimétricos da guerra convencional.

O terrorismo (Al Kaida, ISIS) e a bazófia (Kim Jong-un) servem os países e as forças económicas, financeiras, nacionais, religiosas, ou simplesmente tribais, que não têm meios suficientes para desencadear, e muito menos sustentar, uma guerra convencional.

Mas serve também os mais ricos e poderosos países do planeta, a quem a lei internacional não autoriza a assunção da barbárie.

O eufemismo militar e diplomático do terrorismo que prolifera nas guerras por procuração em volta das principais regiões petrolíferas (proxy wars) do planeta são as chamadas Low Intensity Operations, e engloba figuras de violência assimétirca tão comuns como a subversão e a insurgência.

Na realidade, o que Tyler Shields e Kathy Griffin realizaram, inconscientemente ou não, foi uma ação psicológica não violenta (Gene Sharp). Assumiram-na, instintivamente, como um acto de insurgência cultural, mas sobretudo como arte.

Alguém se lembra de como a arte americana se comportou no tempo da Guerra do Vietname?

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Post Art Gallery

Tyler Shields. Cigar, 2016.

My personal archive as an online art gallery. Why not?


I'm not a gallery man, but a critical artist and a writer. I'm a viewer. I am an active as well as a passive agent. I'm a voyeur (aren't we all?). To think and write about art means having a lot of time to see a lot of it, visiting museums and galleries, reading and viewing books and catalogs, looking for meaningful stuff to feed my thoughts. Thanks to my computer, to my smartphone and thanks to the World Wide Web I can do all this moving my legs and consuming carbon a lot less. And this is a sustainable practice, isn't it?

For instance, it is more interesting to study visual art thru the Internet than going to big art fairs, and blockbuster festivals. In a way, visual art, either iconic or aniconic, is becoming a kind of literature or better said an interface, or index (Gell, A.), to access the art form, and to abduct the art meaning. Most people are going blind on texture and timeless (real generative) space. Fewer people than ever can get in touch with qualia. Everything seems to exist only on techno screens, processors, and servers. Men, women, and children, by the billions, are obsessed with their digital selfies, with transient portraits. Can't see reality anymore, as if it was only a kind of resistance to their will to ephemeral representation loopholes.

Nature is what we are made of, but we think about ourselves as mini Gods, as virtual beings running like video game characters, that is like rats, to nowhere. As interface technology (language in a broad sense) grows to infinity we become less than switches of the new technosphere, totally lost in a new artificial ecology.

For some reason, art museums and art galleries (not to say broadcast television) are losing their people. They seem less real when confronted with the big data stream. So-called artworks are made for no-one, and can only survive if they become synonymous of financial speculation. This dramatic turn, this post-contemporary condition of culture (postmodern in Lyotard's terms), will enhance cognitive machines and post-human fabrics and networks (actor-networks as Bruno Latour names the new thing) on the detriment of modern humans and their rapidly declining middle classes.

Even when walking on the beach, looking the horizon and the clouds, or sensing the strong northwest winds, or smelling rarefied sea perfumes, the digital contamination is overwhelming. It seems that nothing escapes the world data mining, run by a few global companies to whom we bow as happy slaves.

The real world is vanishing into the garbage. Only electronic languages and virtual worlds seem to obliterate our will to a more than ever necessary knowledge.

Yes, we need to go back to reality, but it is not an easy task.

Meanwhile, my Post Art Gallery is a modest way of delivering public thoughts and feelings on what might help us to avoid the perils of banality: the battle for the life and beauty on Earth.

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