sexta-feira, 9 de junho de 2017

WTF?!?

Guttguff. Making waves out of nothing, 2017

WTF?!? é um estado de alma que paira sobre uma fatia cada vez maior do mundo e que um número muito razoável de artistas traduzem na forma escrita e visual dos seus escritos, vídeos, músicas, instalações e… “bonecos” — designação mordaz usada pelos bem formados artistas António Salvador Carvalho, Guttguff (pseudónimo que responde pela série de desenhos apresentados nesta exposição e por uma concorrida conta do Instagram) e Pedro Zamith.

Este trio de excelentes inventores de imaginários cáusticos uniram-se por uma espécie de matrimónio estético inabalável desde os seus tempos colegiais, ou mais precisamente desde que profanaram o velho convento das Belas Artes de Lisboa com as suas bonecadas (a expressão ilustração era já então um anátema). Documento hoje raro da sua passagem pelo Largo da Biblioteca foi um fanzine fotocopiado, povoado de heróis discentes e docentes locais, baptizado com o  título Nova Gina. Quem me dera ter um exemplar!

Artistas malditos por uma nomenclatura local dominada por descendentes degenerados do conceptualismo e suas derivas comerciais intermináveis, este trio de observadores mordazes de uma cultura pós Pop que se auto devora numa espécie de repetição macabra dos anos 20-30 do século passado, valoriza, sobre tudo o resto, o prazer compulsivo de desenhar os demónios da nossa contemporaneidade. Desenham como respiram, e desenham como pensam, à mesma velocidade!

A exposição WTF?!? é apenas o destapar de um baú de iguarias visuais e narrativas, onde as memórias mais góticas (góticas mesmo) da representação europeia se fundem com as imagens do mundo flutuante que do século 17 até aos nossos dias fizeram a magnífica tradição icónica japonesa, ou ainda com o que de melhor a Pop e a Banda Desenhada trouxeram ao século 20.

Estes não são jovens artistas à procura de uma oportunidade nos corredores mais ou menos sórdidos da arte contemporânea, mas autores maduros cuja obra começa neles mesmos, e não no teatro de vaidades e ambições angustiadas que vemos por aí.

Boa parte da mal dita arte contemporânea é hoje um armazém infinito de nada. Ninguém sabe o que é (começando pelos seus autores zombies), para que serve, e porque é tão escandalosa e ostensivamente cara.

Temos que rever, talvez numa grande exposição a começar em Rafael Bordalo Pinheiro, a figuração artística portuguesa desde o fim do século 19 até hoje.




Do comunicado de imprensa

No próximo dia 22 de junho, às 19 horas, inaugura na Editora da Livraria Sá da Costa, na Praça Luís de Camões, uma exposição de desenhos originais de António Salvador Carvalho, Guttguff e Pedro Zamith.

Produzida pela Ocupart, esta exposição é comissariada por António Cerveira Pinto, que sobre a mesma escreveu um texto particularmente vivo, do qual se destaca a sua referência às relações de amizade e criatividade, ao longo de mais de uma década, entre os três artistas, bem como ao sentido de humor particularmente ácido e contundente dos seus “bonecos”.

A exposição vai estar patente de 23 de junho a 21 de julho, das 12h às 19h, na Praça Luís de Camões, 22, 4º andar, em Lisboa.

António José Carvalho (#guttguff), nasceu em Lisboa em 1969. Em 1995 licenciou-se em artes plásticas - escultura pela Faculdade de Belas Artes de Lisboa.

Durante anos foi assistente de escultura, colaborando com vários artistas de renome mundial e conta no seu currículo com inúmeras exposições coletivas e individuais. Especialista em fazer “bonecos” nas mais diversas formas e estilos, é também professor de Desenho A no St. Peter´s International School.

António Salvador Carvalho nasceu em Lisboa em 1969. Cursou pintura na Faculdade de Belas Artes de Lisboa e Animação 3D na Bournemouth University no Reino Unido.

Trabalha há décadas como criativo para publicidade TV num exercício de autoflagelaçao e puro masoquismo, que o inspira para projectos pessoais em torno do desenho, pintura e animação.

Pedro Zamith nasceu em Lisboa em 1971. É licenciado em pintura pela FBAUL, possui um Bacharel em Cenografia pela Escola Superior de Teatro e Cinema e um curso de Cinema de Animação, pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Atualmente é professor de Visual Arts no Oeiras International School. Foi professor de Visual Arts no Colégio Planalto e professor de pós-graduação em Ilustração na ESTC até 2012.

Pedro Zamith conta com inúmeras exposições individuais e coletivas. Publicou três livros, intitulados “Frank Sinatra” (2003), “Louis Jordan” (2004) e “O homem que desenhava na cabeça dos outros” (2006).

sexta-feira, 2 de junho de 2017

A desconstrução do terrorismo

Tyler Shields and Kathy Griffin
untitled #1



Tyler Shields and Kathy Griffin
untitled #2

Quando a arte ultrapassa a propaganda.


Tyler Shields é um dos fotógrafos mais badalados, bem pagos e influentes dos Estados Unidos. Uma espécie de sucedâneo pós-moderno de Helmut Newton. Por sua vez, Kathy Griffin é provavelmente a mais famosa comediante americana dos nossos dias. Juntaram-se para fazer uma fotografia contra a hecatombe política provocada pela eleição do hoteleiro e especulador imobiliário Donald Trump para presidente da nação mais poderosa do planeta, ainda que em flagrante e aflitiva decadência.

O resultado foi tremendo. Basta escrever os seus nomes na Net para encontramos uma torrente de notícias, fotos e vídeos devolvida avassaladora. Kathy Griffin, depois do terror mediático instalado à volta de uma fake news, foi demitida pela CNN, onde trabalhava e fazia grande sucesso, pedindo depois a Tyler Shields que destruisse a foto da sua desgraça. Obviamente que a cabeça de Trump não foi decepada por nenhum dos facínoras do famoso 'Estado Islâmico', criado e apoiado por destacados aliados dos Estados Unidos, como o Qatar e a Arábia Saudita a quem Donald Trump acabara de vender 100 mil milhões de dólares de material de guerra (ver aqui e aqui). Nem se trata de uma operação especial dos serviços secretos de Hillary Clinton. É, tão simplesmente, uma abdução estética da realidade e um protótipo artístico que evoca de forma espantosa o terror contemporâneo. Uma poderosa abdução, e um poderoso protótipo, no entanto.

As degolações que o ISIS tornou mundialmente famosas resultaram de grandes e cuidadas produções hollywoodescas (The Guardian). Mas a diferença entre a ação psicológica do novo terror islâmico e os filmes de propaganda americanos sobre bons e maus, e a superioridade indestrutível dos yankees ou gringos, é que as cabeças que rolam nos vídeos do dito Estado Islâmico, propagados através do YouTube, fizeram um dia realmente parte de corpos de pessoas inocentes (James Fowley, 2014).

É talvez esta correlação entre a realidade e a fantasia que terá fascinado Tyler Shields e Kathy Griffin, e certamente explica, pelo menos em parte, a sua ousadia. O que provavelmente não anteciparam (ou talvez sim) foi a enorme repercussão mediática da sua fantasia gore, ou antes, do modo como pretenderam chegar artisticamente à famosa real thing (Miles Orvell) que denota especificamente e diferencia a cultura americana da cultura europeia, e de muitas outras.



O terror é uma das mais velhas táticas da guerra. Regressou em força no século 21 como um dos substitutos assimétricos da guerra convencional.

O terrorismo (Al Kaida, ISIS) e a bazófia (Kim Jong-un) servem os países e as forças económicas, financeiras, nacionais, religiosas, ou simplesmente tribais, que não têm meios suficientes para desencadear, e muito menos sustentar, uma guerra convencional.

Mas serve também os mais ricos e poderosos países do planeta, a quem a lei internacional não autoriza a assunção da barbárie.

O eufemismo militar e diplomático do terrorismo que prolifera nas guerras por procuração em volta das principais regiões petrolíferas (proxy wars) do planeta são as chamadas Low Intensity Operations, e engloba figuras de violência assimétirca tão comuns como a subversão e a insurgência.

Na realidade, o que Tyler Shields e Kathy Griffin realizaram, inconscientemente ou não, foi uma ação psicológica não violenta (Gene Sharp). Assumiram-na, instintivamente, como um acto de insurgência cultural, mas sobretudo como arte.

Alguém se lembra de como a arte americana se comportou no tempo da Guerra do Vietname?

quinta-feira, 1 de junho de 2017

Post Art Gallery

Tyler Shields. Cigar, 2016.

My personal archive as an online art gallery. Why not?


I'm not a gallery man, but a critical artist and a writer. I'm a viewer. I am an active as well as a passive agent. I'm a voyeur (aren't we all?). To think and write about art means having a lot of time to see a lot of it, visiting museums and galleries, reading and viewing books and catalogs, looking for meaningful stuff to feed my thoughts. Thanks to my computer, to my smartphone and thanks to the World Wide Web I can do all this moving my legs and consuming carbon a lot less. And this is a sustainable practice, isn't it?

For instance, it is more interesting to study visual art thru the Internet than going to big art fairs, and blockbuster festivals. In a way, visual art, either iconic or aniconic, is becoming a kind of literature or better said an interface, or index (Gell, A.), to access the art form, and to abduct the art meaning. Most people are going blind on texture and timeless (real generative) space. Fewer people than ever can get in touch with qualia. Everything seems to exist only on techno screens, processors, and servers. Men, women, and children, by the billions, are obsessed with their digital selfies, with transient portraits. Can't see reality anymore, as if it was only a kind of resistance to their will to ephemeral representation loopholes.

Nature is what we are made of, but we think about ourselves as mini Gods, as virtual beings running like video game characters, that is like rats, to nowhere. As interface technology (language in a broad sense) grows to infinity we become less than switches of the new technosphere, totally lost in a new artificial ecology.

For some reason, art museums and art galleries (not to say broadcast television) are losing their people. They seem less real when confronted with the big data stream. So-called artworks are made for no-one, and can only survive if they become synonymous of financial speculation. This dramatic turn, this post-contemporary condition of culture (postmodern in Lyotard's terms), will enhance cognitive machines and post-human fabrics and networks (actor-networks as Bruno Latour names the new thing) on the detriment of modern humans and their rapidly declining middle classes.

Even when walking on the beach, looking the horizon and the clouds, or sensing the strong northwest winds, or smelling rarefied sea perfumes, the digital contamination is overwhelming. It seems that nothing escapes the world data mining, run by a few global companies to whom we bow as happy slaves.

The real world is vanishing into the garbage. Only electronic languages and virtual worlds seem to obliterate our will to a more than ever necessary knowledge.

Yes, we need to go back to reality, but it is not an easy task.

Meanwhile, my Post Art Gallery is a modest way of delivering public thoughts and feelings on what might help us to avoid the perils of banality: the battle for the life and beauty on Earth.

Link to Post Art Gallery

quarta-feira, 31 de maio de 2017

Bonecada também é arte!


Peter Saul, Ice Box 8, 1963,
Oil on canvas, 190 x 160 cm / 74,8 x 63 inches, 
Hall Collection, © Peter Saul, Courtesy Hall Art
Foundation, Photo: Jeffrey Nintzel


Peter Saul @ Schirn Kunsthalle Frankfurt


The powers that be who dominates the Portuguese indigenous art scene hate anything and anyone near hard drawing and hard-core figuration. The bureaucrats follow this idiotic trend and finance it with public money. Let's trash these pretentious apparatchiks!

Estou disposto a dirigir um pequeno museu de bonecada, para acabar de vez com o 'liricoidismo' indígena. Um museu de género, crítico, às vezes mesmo, sórdido, onde não falte a mãozinha, o saber fazer e o humor. Programa do futuro museu da bonecada de Lisboa (o desejo é livre):

Alice Geirinhas
Alvarez
António Olaio
Artur Varela
Daniela Viçoso
Eduardo Batarda (do período inglês)
gémeos Carvalho
Joana Vasconcelos
João Fonte Santa
Jorge Barradas
Jorge Castanho
José Carvalho
Júlio
Manuel João Vieira
Mimi
Gonçalo Pena
Palolo
Paula Rego
Pedro Amaral
Pedro Proença
Pedro Zamith
Rafael Bordalo Pinheiro
René Bertholo
Sebastião Resende
Susanne Themlitz

e ainda...

Alfre Leslie
Alice Lex-Nerlinger
Carl Grossberg
Chitra Ganesh
Chris­tian Schad
Conrad Felixmüller
David Hockney
Dodo
Edvard Munch
Egon Schiele
Elfriede Lohse-Wächtler
Emil Nolde
Ernst Ludwig Kirchner
Francis Bacon
Franz Radzi­will
Franz von Stuck
Frida Kahlo
Georg Scholz
George Grosz
Jörg Immendorff
Keith Haring
Kenny Scharf
Hans and Lea Grundig
James Ensor
Jeanne Mammen
Karl Hubbuch
Käthe Kollwitz
Leon Golub
Lotte Laser­stein
Lucian Freud
Max Beckmann
Miza Coplin
Oskar Nerlinger
Otto Dix
Paul Delvaux
Peter Saul
Philip Guston
Pierre Klossowsky
René Magritte
Richard Ziegler
Robert Crumb
Robert Williams
Rudolf Schlichter
Tim Behrens
etc.

E agora ...

Peter Saul, Rich Dog, 1963,
Oil on canvas, 149 x 150 cm / 58,7 x 59 inches,
Hall Collection, © Peter Saul, Courtesy Hall Art Foundation,
Photo: Jeffrey Nintzel

PETER SAUL
JUNE 2 – SEPTEMBER 3, 2017

From June 2 to September 3, 2017 the Schirn Kunsthalle Frankfurt is presenting an extensive survey exhibition of the work of the American painter Peter Saul (*1934 in San Francisco, California).

Long before “Bad Painting” became a central concern in contemporary art, Peter Saul deliberately offended good taste. Beginning in the late 1950s he developed his highly individual idiom blending Pop Art, Surrealism, Abstract Expressionism, Chicago Imagism, San Francisco Funk, and cartoon culture, one in which he managed to address complex political and social issues. Saul shares with Pop Art an interest in the commonplace, in consumer society, and the cheerful pictorial worlds of the comics in glowing, appealing colors. Yet his work is also associated with the aesthetic strategies of the California counterculture. He produces an almost irate kind of painting when depicting the darker sides of the American Dream. In it he combines exuberant humor and playful but harsh criticism of the system. He makes use of jokes, slapstick, puns, comedy, and persiflage, and often crude humor in his caricature-like attacks on American high culture. Apart from the major artistic schools, Saul developed an extremely idiosyncratic oeuvre. Never really associated with any group or movement, he has been painting in his own way despite changing artistic fashions for more than fifty years. Saul’s paintings tell stories, tend toward exaggeration, and resist unambiguous interpretation. The Schirn has brought together roughly sixty works by this hitherto little noticed “artists’ artist,” among them groundbreaking groups of works like his Ice Box Paintings, his comics narrations and Vietnam paintings from the 1950s and 1960s, as well as never exhibited drawings and selected late works from the 1980s to the 2000s.

This exhibition is made possible through support from the Terra Foundation for American Art.

Peter Saul, San Quentin # 1 (Angela Davis at San Quentin), 1971,
Oil on canvas, 180,3 x 238,8 cm / 71 x 94 inches,
© Peter Saul, Collection of KAWS


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Atualizado em 1/6/2017 10:13 WET

domingo, 28 de maio de 2017

MAAT Conference on Post-Internet Cities




I met a few wonderful people at MAAT’s Post-Internet Cities, namely Nashin Mahtani, Morten Søndergaard, Andrea Baldini, Alice Bucknell, Marisa Olson and Giselle Beiguelman. I was also curious about the work by IOCOSE Collective, after listening to Matteo Cremonesi presentation. I had the feeling that if I have had the opportunity to listen to Linda Aloysius‘s complete wanderings on “Art: Women’s Dirty Work in the Digital Age”, another impression would last. Funny and very MIT was AI and ML approach by intelligent design post-graduate students Stephanie Cedeño, Xiaoxuan (Sally) Liu, Godiva Veliganilao Reisenbichler, Nicci Yin.

The only question (rephrased) I addressed the conference:

What are the differences between technology and nature from the point of view of today’s children, and what differences will they make to future art practices?